Traíras e bagres

As atividades profissionais e voluntárias que realizo propiciam conhecer e conviver com gente bacana e que vale uma boa prosa e da qual se tem saudade.

Por outro lado, o efeito colateral é desperdiçar tempo e por à prova minha paz com profusão de criaturas das quais logo se descobre que a única coisa boa que podem oferecer é a ausência ou o contato absolutamente inevitável. Cuidado suscitado pela lembrança do “dize-me com quem andas e te direi quem és!”

Jamais conheci uma pessoa - de real e bom caráter - que não tenha comiseração do sujeito que vive de falar mal dos outros, quando ausentes, e a lamber-lhes, quando presentes, a depender da conveniência da ocasião: seja para lograr vantagem de merecimento nenhum, seja para esconder o nariz de Pinóquio, que só não é maior que a cara de pau típica dos que nasceram humanos, mas se comportam como traíras e bagres.

Pessoas de real e bom caráter também sucumbem a este miserável comportamento. Incluo-me. Entretanto, por escolherem e cultivarem o que há de bom no ser humano, conhecem o bem estar que sentem e propiciam ao serem verdadeiramente honestas, sensatas, solidárias e de uma cara só; apesar da impossibilidade de acertar ou agradar sempre, do imperativo de respeitar opiniões diversas, de aceitar o que não pode ser mudado – e de discernir com mais acertos que erros. Por isto, quando caem, se esforçam por levantar e fortalecer para protelar novos tombos. O quão conscientes são da sua qualidade e utilidade para si, famílias e sociedade, é com cada um.

Sem suas máscaras de canastrões, os mentirosos mostrariam seu eu real, exposto nas expressões às quais o título do artigo alude. De fato, mostram-se como realmente são, posto que, como já dito, de canastrões não passam. Podem ser bajulados por gente vítima de outra variante de pequenez de caráter: que simulam apreço para mendigar favores - enquanto o bajulado ocupe cargo ou função que seja ou pareça influente, ou, tenha conta bancária considerável aos olhos do bajulador. Injustiça é sempre possível, no entanto, mentiroso é só o que é: um mentiroso, que como tal será lembrado e falado – mesmo que às costas, vítima do veneno que constantemente destila e sorve. Bajulação e mentira caminham juntas.

Tendemos a nos auto avaliar maravilhosamente bem, como os melhores, mais felizes e detentores de respostas para tudo que nos apeteça e até da pura verdade – fazendo vistas grossas à vastidão de nossa ignorância e minimizando a pequenez de nosso conhecimento. Apesar disto, somos geralmente capazes de depreender o que é verdade ou mentira - e os pensamentos, sentimentos e ações delas decorrentes. Podemos escolher entre ser ou parecer ser; e a depender das escolhas, desperdiçamos tempo irrecuperável para tentar esconder – sem sucesso - nossas verdadeiras características e intenções. Desta ingênua escolha resultará em que cada qual se construirá ao longo da vida uma pessoa medíocre ou notável, infeliz ou feliz.

Ser notável, útil, respeitável e feliz não está atrelado a nenhum sobrenome, cargo, função e dinheiro no bolso; e é impossível sê-lo se a matéria prima for mentira, bajulação e tudo a elas relacionadas.

Diante dos outros podemos parecer ser o que não somos (geralmente, não tanto quanto achamos que os enganamos). Diante do espelho de nossa consciência costumamos saber o que é e o que parece ser em nós (pergunto-me se o maior dos infelizes não seria aquele que se engana a si mesmo).

Alguém vai discordar e respeito. Reservo-me o direito de insistir na repetição e na convicção de que as realmente grandes, notáveis, respeitáveis e felizes pessoas tendem a concordar com este ingênuo que ainda crê que vale a pena ser e não apenas parecer ser pessoa, na plena acepção do termo.

José Carlos de Oliveira

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