Todos temos momentos de terra ou terreno e momentos de semente e semeador.
Aquele que em dada circunstância está para falar, na maior parte do tempo tenderá a ser semente e semeador. O que está para ouvir, é a terra ou terreno a receber as sementes. Os papéis se invertem a qualquer momento e só os realmente interessados vão se construindo interessantes, quanto mais admitam e aproveitem esta maravilhosa imposição da vida.
Do nível de aproveitamento das experiências ao longo da jornada anterior àquele momento, do preparo específico para a ocasião, das reações ante os previstos e imprevistos pelos quais passou nos dias e horas anteriores; disso resultará a qualidade das sementes e do semeador; da terra ou terreno.
Até as melhores sementes e semeadores não são para todos os terrenos e nem para todas as épocas ou circunstâncias. Nem sempre serão lançadas com destreza. E sempre dependem que a terra seja apta a receber e tirar proveito.
Há quem se torne semente de joio, erva daninha e outras pragas; inúmeros, qual maçã envenenada para a Branca de Neve, apenas parecem ser fruto que presta. Outros, se tornam tão áridos que até boas sementes sofrem para neles germinar ou perecem.
Uma das maiores tolices que alguém pode cometer contra si mesmo é a de se achar sempre somente semente e semeador. Outra, é até permitir-se ser terra e terreno mas selecionar demais as sementes e semeadores, super valorizando uns, sub valorizando outros.
E há quem seja ótima semente e péssimo semeador. Só dá importância às suas sementes e se impõe como semeador. Ai de quem ousar querer fazer troca ou soma de sementes e partilhar a semeadura. Esse é o tipo que até pode sinceramente se importar com você e até pode se sentir como sendo seu amigo, desde que você sempre concorde com ele em tudo. Ele respeita a sua opinião, se tudo for absolutamente de acordo com a vontade... dele!
Todos somos um pouquinho assim: ao menor descuido, sempre prontos a palpitar, em palavras ou pensamentos, no trabalho, estudo, família, enfim, tudo... dos outros. Em doses moderadas e sensatas, pode ser até útil e construtivo.
Mas tem gente que é só e sempre assim. Se é prudente desconfiar de quem sempre só faz elogios e concorda com a gente – está enganado, é omisso ou mentiroso – é imperativo desconfiar de quem sempre se apresenta como o dono da verdade – embora, previsivelmente, costume negar ser acusado disto.
Desses, infelizmente, só o afastamento resolve, ou, limitar o relacionamento ao mínimo. O que pode ser difícil quando a pessoa é boa, trabalhadora, honesta, solidária, inteligente e você gosta dela. Porém, inevitável, pois, conviver com quem só está de bem com os outros enquanto a opinião alheia seja rigorosamente a mesma do intransigente, então, divergência é mera questão de tempo.
Eu, escritor, você, leitor, interagimos considerando uma terceira pessoa, que é representada por algumas com as quais convivemos e encontramos eventualmente. Não sejamos eu nem você a personificação dessa tal terceira pessoa: caso em que eu não estaria interessado em sua opinião acerca das ponderações aqui contidas; e você já teria destinado este artigo ao lixo. Para nossa sorte, passemos ao largo deste horrível erro.
Todos temos momentos de terra ou terreno e momentos de semente e semeador. Isto, mais que inevitável, é indispensável para quem quer sair-se bem na arte de viver: quem acha que caminha sozinho não aprendeu a caminhar.
José Carlos de Oliveira
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