Inevitável e indispensável - Segunda Parte

O Palácio do Planalto, o Congresso Nacional e as Assembleias Legislativas continuarão sendo habitat de lobos e raposas. Mesmos discursos, fantasiosas embalagens, conteúdos medíocres e hipócritas, conforme orientações do Manual do Candidato às Eleições, tais como:

“Você deve constituir amizades de todos os tipos: nomes ilustres, os quais conferem prestígio ao candidato; magistrados, para garantir a proteção da lei. (...) Isso requer conhecer as pessoas de nome, usar de certa bajulação.” “Apesar de os dons naturais valerem muito, (...) um perfil bem forjado pode falar mais alto que a natureza.” “Se você promete (o que o eleitor pede), essa raiva é incerta, futura e se instala em bem poucos. Mas se você nega, provoca irritação no ato e em muitos.” “Não quero que você ostente isso (a corrupção dos adversários) diante deles de maneira a parecer que já planeja uma acusação, e sim que, pelo simples medo disso, você consiga com facilidade aquilo que busca.”

O Manual também recomenda fortalecer amizades já existentes e conquistar outras, cobrar favores prestados, decorar tantos nomes quantos sejam possíveis, sorrir para todo mundo, simular generosidade, fazer promessas mesmo sabendo que não as cumprirá, pedir votos na rua, cercar-se de multidões, falar a língua do povo e dar publicidade aos podres dos adversários.

O Manual foi escrito em Roma, por Quinto Túlio Cícero. O autor preparou-o para seu irmão, Marco Túlio Cícero, orador e político que candidatou-se e foi eleito ao posto máximo da República romana: o de cônsul; no ano de 64 a.C. Parece ter sido escrito pelos regiamente pagos marqueteiros de hoje e seguido fielmente pelos seus endinheirados clientes. Poderia ser o livro de cabeceira de inúmeros dentre os que estão ou estarão no poder ou o buscam, em todos os níveis e áreas da sociedade da qual saem aqueles e aquelas que costumamos chamar políticos e seus assessores.

Então, nas campanhas eleitorais geralmente se sai melhor quem mascara seu Projeto de Poder em arremedo de Programa de Governo, mentindo a cântaros e prometendo o que não é factível. Falácia para pescar multidões despolitizadas, orgulhosas da própria ignorância - “Política não é para pessoas sérias”, “Política e religião não se misturam” , dentre outros tiros nos próprios pés estabelecidos pelo ‘equivocário’ popular.

Agora se fala menos de reformas trabalhista, previdenciária, tributária e política. A grande reforma haveria de ser a da moral e da ética: dos candidatos, dos eleitos, seus parentes, amigos, indicados, dos que adorariam estar no grupo ou grupelho, e dos eleitores. Descemos a um patamar que simboliza a institucionalização do jeitinho brasileiro, da lei de Gerson, da cortesia com o chapéu alheio, do rouba mas faz, da mentira tanto e tão bem contada até travestir-se em verdade, das descaradas mudanças de lado a fim de sentar no colo do favorito e poderoso da ocasião; da indiferença, do cada um por si, do fazer de conta ser sem nunca ter sido, do simular servir para se servir. E o que é trágico: tal como o gás inodoro e mortal, que assassina lentamente sem que a vítima perceba, até pessoas íntegras caem cada vez mais nesta arapuca escondida nos exemplos que recebemos e nos damos uns aos outros, até quando convictos de que não fazemos nada de errado e indignados com o mau e mal feito por outrem. Agir errado soa normal; defender o certo e tentar fazê-lo soa ser chato ou bobo.

Com bordões do mais genial, vitorioso e popular demagogo e populista da história recente, “eu não tenho dúvida nenhuma” de que “nunca antes na história desse Pais” a centenária assertiva de Rui Barbosa ecoou tão implacável: “De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça. De tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto.” Diante do espelho da sua consciência: o quanto você costuma ser honesto mesmo ou parecido com aqueles e aquelas que querem o binômio seu voto e alienação?

Passar a vida opinando sobre pessoas e assuntos dos quais pouco ou nada sabe, se tanto, confiando apenas n'algum formador de opinião da sua preferência, na mídia e fora dela – mesmo que seja sério e capaz (e inúmeros são tão pífios ou piores que os políticos em geral; estando, até, a serviço deles) – é o combustível que alguém pode dar aos oportunistas cujo êxito depende da alienação servil das massas. Interessar-se por um tema sazonalmente, como quase todos fazem quando das campanhas eleitorais, é parecido com aqueles que só se esforçam por estudar nas vésperas de provas escolares: podem até lograr aprovação e levar o certificado de conclusão do curso, e 'colar' também a aparência do status, mas se instados a explanar acerca do seus saber, ou usá-lo a contento, darão vexame, ainda que não percebam ou não admitam o próprio fiasco. Idem, quanto àqueles que fazem o suficiente para alcançar uma função religiosa, comunitária, profissional etc e depois não são fieis e nem fazem mais nada para aprender e evoluir (além da falta de respeito à instituição que nele ou nela confiou, mantém e, por vezes, paga ou sustenta).

Há, e é indispensável que haja mais e mais políticos honestos e capazes fazendo frente aos lobos e raposas. Para isso, é preciso que mais e mais cidadãos entendam que não basta ser honesto: é preciso participar, estudar, aprender, conhecer, sempre e cada vez mais os grandes temas e questões da sua comunidade, cidade e nação. A política, na amplitude do seu significado, principalmente. Se não conseguir fazê-lo com satisfação, que seja por obrigação. No mínimo, aprendendo a votar e a acompanhar, mesmo sob o grande risco de errar, cansar e decepcionar; caso em que é imperativo recomeçar: a vida toda!

Participar é conviver com diferentes interesses, opiniões e espinhos. Que mais pessoas de bem parem de apenas falar disso ao longe, nos almoços e jantares nas suas casas e grupos, e aprendam que os seus cantos, celebrações e orações só serão plenamente honestos e úteis se os praticarem fielmente junto à sociedade, com atitudes e tarefas concretas, constantes, abnegadas, dentre as inúmeras possíveis. Ou, de tanto nos acostumarmos aos espinhos da insegurança pública crescente, da educação e saúde pública medíocres ou não acessíveis, do desperdício de alimentos e os milhões de famintos, dos juros e carga tributária altíssimos, da enorme dívida interna, do desmatamento e poluição sem controle, da impunidade e generalizada corrupção, da coisa pública usada como meio de fazer carreira, negócio de família e riqueza, logo, logo, senão nós, nossos filhos e netos (além dos que já descendem de gerações de excluídos), não teremos mais onde ou como falar, almoçar, jantar e rezar, posto que todos, honestos e desonestos, ficaremos somente com as flores para enfeitar o caixão da justiça, da civilidade, da sociedade, da casa própria e a da praia, do automóvel, do planeta...

Já é tarde, mas ainda dá tempo: nem você e nem o mundo serão perfeitos, mas você pode ser uma pessoa cada vez melhor, ajudando a melhorar o mundo e as pessoas, a começar pelas que lhe sejam mais caras!


José Carlos de Oliveira

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