Da própria capacidade da apurada observação do comportamento humano, diriam os fictícios Hercule Poirot, Sherlock Holmes e Adrian Monk: “É um dom e uma maldição!” Poirot - criação de Aghata Christie, uma das autoras mais lidas de todos os tempos - é um detetive belga, vaidoso e de aspecto e hábitos por vezes tidos como ridículos; resolve seus casos sentado em sua poltrona, olhos fechados, tirando o máximo das suas pequenas “células cinzentas”. Holmes - criado por Arthur Conan Doyle, que preferia outros temas que não o policial - vive quase recluso na Baker Street, da qual mal sai, a não ser que para investigar. E Monk, personagem de série atual na TV, é portador de TOC (Transtorno Obssessivo Compulsivo). Fictícios e heróis, sempre se dão bem; embora seus criadores não os poupem dumas pitadas de realidade: o primeiro foi morto ao final de longa carreira (com a própria morte, numa armadilha, desvendou um crime); o segundo, de tão abominado por seu criador, foi morto no meio da carreira e só ressurgiu após insistente apelo dos leitores; e o terceiro, ainda na ‘ativa’, ao menos por ora, não encontra o assassino da própria esposa...
Esses raros observadores contumazes e sagazes do comportamento humano, que por vezes parecem ter estado onde não estiveram, conforme descrevam o que de fato aconteceu; que parecem videntes, quando sugerem o que vai acontecer, e acertam; que parecem uns impertinentes, quando esmiúçam o presente: são pessoas tão suscetíveis ao erro, à dúvida e às intempéries emocionais como qualquer outra pessoa. Tem lá suas manias e costumam se destacar também por elas. Não são intrometidos e nem fofoqueiros. Dado serem peritos em natureza humana, manifestam-se quando solicitados e, tanto quanto possível, respeitam o livre arbítrio de quem quer que seja. Reais, não têm garantia de sucesso no último capítulo.
Gente assim vai ao âmago do pensamento e ações das pessoas, com muito maior propriedade e acertos. Há conseqüências. Ao menor descuido, podem tornar-se pessoas solitárias, excêntricas ou arrogantes, tristes ou com alegria obscura, conforme administrem seu talento. São pessoas das quais as outras tenderão a querer proximidade inicialmente, pela admiração que costumam despertar, e distância finalmente: naturalmente, estamos prontos a oferecer pensamentos, sentimentos, opiniões e respostas para as dificuldades dos outros, mesmo daqueles que sequer conhecemos ou gostamos, mas, ai de quem se atrever a fazer isso conosco. Especialmente, quando o que nos é dito não agrada, por sabermos de antemão ou concluirmos após, ser realmente a... verdade! Só, talvez, em situações críticas, ora de alguém muito próximo, ora de alguém completamente estranho ou inesperado; e nem sempre, e nem tanto.
A agravar está o fato de que até os mais quietos, tendo chance e incentivo, adoram falar de si mesmos. Por outro lado, mesmo os bem falantes não costumam gostar de ouvir os outros, até os que lhes sejam caros. A não ser que se tenha curiosidade de saber algo; aí, sob exceção, a gente se faz ouvinte, mais interesseiro que interessado.
Todos padecemos a burrice natural de não gostar de ouvir comentários a nosso respeito, que não sejam agradáveis ao egoísmo, comodismo e vaidade. Todos podemos vencê-la; senão sempre ou com máximo acerto e proveito, ao menos, com freqüência e intensidade, a serem ampliadas conforme façamos do desejo uma vontade e, desta, um hábito.
Um Poirot, Holmes ou Monk da vida real tende a angariar mais pupilos que amigos. São pessoas exigentes e peculiares. Quem tiver o privilégio de ser pupilo, e de carona amigo, de alguém assim, deveria se sentir honrado. Se você tiver a sorte de partilhar alguma atividade e conversas com uma pessoa dotada desta especialidade, antes de achá-la uma chata, dê-lhe ouvidos. Mesmo que nem venha a admirá-la, algo de bom você poderá aprender com ela, ainda que nem perceba ou admita publicamente.
Como encontrar alguém assim? Acontece simplesmente. E raramente. Você vai identificando a pessoa pelo ‘jeitão’ dela, conforme já dito nos parágrafos anteriores. Tem luz própria. É gente que chega num ambiente pela primeira vez, é novata, e é percebida e tratada com deferência. É gente que você sempre quer consultar a respeito dos seus assuntos e cuja palavra tem peso nas suas decisões. É gente de quem você fala e até quem não conhece, começa a respeitar e querer conhecer. É gente que você logo admira e quer estar mais próximo e por mais tempo, especialmente, conforme cresça a amizade e a intimidade. É gente que não sabe tudo mas não se consegue contestar, tamanha a propriedade do que diz e do testemunho que dá, com atos.
Inevitavelmente, essa gente rara irá se tornando “santo de casa”. Talvez, pelas características do mestre e do pupilo (embora os papéis se invertam a toda hora) e das situações pelas quais passem, a admiração diminuirá ou cessará, dando espaço para o tédio e até irritação; e preferência por outras companhias, sem tanto ou nenhum comprometimento, além das trivialidades do cotidiano de algum curso ou trabalho. Mesmo nessa hora terá valido a pena: as pessoas vêm e vão mas podem deixar suas marcas umas nas outras. Se boas ou não, é outra história.
E há sempre a chance da gente ser aquele privilegiado que n’algum momento da vida conhece alguém especialíssimo, com quem partilhara tanto, mas tanto, que por toda a vida nenhuma divergência ou problema matará a relação.
José Carlos de Oliveira
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